quarta-feira, 11 de maio de 2011

Da possibilidade ao encontro da historicidade

(Relógios Derretidos - Salvador Dali)





Nesses tempos em que o próprio tempo não permite a vivência das calçadas, onde as notícias, as experiências e as histórias eram contadas ou repassadas durante o anoitecer deve-se agradecer aos gênios criativos e criadores desse mundo (contemporâneo) das idéias, facilitador da interação no universo do conhecimento. O veículo pelo qual estamos, nesse momento, a dialogar é um exemplo da afirmação anterior, visto que possibilita que nós, alunos da Universidade Federal de Campina Grande nos, possamos partilhar com indivíduos dos mais diversos lugares os conteúdos trabalhados na disciplina de Historiografia – ministrada pelo professor doutor Iranilson Buriti.
O blog foi criado na década de 1990, como uma forma de aperfeiçoamento das listas de discussão, realizadas através de e-mails, permitindo uma maior interatividade a partir do momento em que as intervenções são realizadas todas no mesmo espaço. Inicialmente mais ligado à escritas de si, passa, em seguida, a ocupar espaço nos mais distintos campos, como a literatura, a música, futebol, moda, culinária assim como a História.
Para iniciarmos o “tricô” nada melhor do que comentar um artigo do historiador Manoel Luiz Salgado Guimarães, que tem como título Escrever a História, domesticar o passado onde consegue dialogar com o leitor sobre o escrever história, perpassando desde essa  possibilidade até chegar-se a um encontro com a historicidade. O início do artigo traz uma citação de Odisséia, capítulo VIII, ponto de partida para a discussão acerca da representação da realidade de mundo ocidental. Traz as visões de outros historiadores em relação a tal temática, tendo como exemplo Hananh Arendt – e sua preocupação com as formas consideradas antigas e as modernas do escrever para a disciplina – e François Hartog atuando no tocante a memória e lembrança, ambos dando ênfase a grande importância de Homero
A discussão em torno da narrativa histórica foi construída de maneira que possibilita o leitor pensar escrita enquanto um movimento ou um caminho a ser percorrido entre aquilo que foi vivenciado e o que é relatado. Isto porque a reconstituição dos cenários passados não é viável quando se leva em consideração os elementos do narrar, como a memória, os sentimentos envolvidos nas experiências – também por parte daqueles que irão ler – assim como o lugar de partida do autor, que pratica um descentramento de si no momento do distanciamento de si. Ele vai de encontro as novas experiências tendo o retorno logo após as inúmeras mudanças ocorridas pelo caminho, não possibilitando uma fidelidade, nem mesmo uma neutralidade ali empregada.
Outro ponto interessante na narrativa do Salgado Guimarães é o controle e a ordenação exercida por tal narrativa, no sentido de “enquadrar” os eventos numa espécie de mosaico onde os mesmo passarão a pertencer a um conjunto de significados e significações. Como nos disse, em sala de aula, o professor Iranilson Buriti a escrita é uma forma de aprisionar, se pensarmos que no momento em que se produz uma escrita sobre determinado assunto, o enquadramos na mesma, a depender das demandas e interesses ali embutidos.
Num segundo tópico, o autor trabalha a necessidade de se organizar a História enquanto disciplina, mantedora dos estudos e manuseios sobre o passado. Esse, numa relação estreita com aquela, foi posto num envolvimento direto com o presente e o futuro quando funciona enquanto definidor das expectativas assim como do respaldo para a manutenção do que se vive, interferindo também nos contornos do que ainda virá. A domesticação do passado se dá então através do que se espera aqui no presente, de certa maneira. A escrita é colocada então como capaz de desestabilizar ou construir uma nova unidade em nome dos objetivos, inclusive políticos.
A produção de uma escrita nacional se enquadra dentro do raciocínio anterior, se pensarmos a necessidade existente da continuidade do passado, mesmo que ainda venham a ter rupturas.  O exemplo de Ulisses, em Odisséia, é pertinente para se levar em conta que a história está muito presente nesse campo da narrativa, já que não se pode provar uma veracidade incontestável, uma verdade absoluta – penso que em nenhuma de suas correntes, não restringindo a esse lugar não apenas campos como história e literatura, história em quadrinhos ou até mesmo a escrita de si.
Autoria: Laís Medeiros Cavalcante. Graduanda do curso de História da UFCG.
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Referência:

GUIMARÃES, Manoel Luiz Salgado. ESCREVER A HISTÓRIA, DOMESTICAR O PASSADO.

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