quarta-feira, 11 de maio de 2011

Uma história brasileira das doenças


    A história das doenças ganhou expansão com o florescimento de estudos como a história demográfica, e antropologia social, a história material e mental. Os estudos englobam doenças crônicas, endemias e epidemias, com implicações sociais, políticas e ecológicas.
   Entre os diferentes grupos sociais há diferenças marcantes no sofrer ou reagir as doenças. Algumas doenças regridem como a tuberculose e a cólera, enquanto outras prevalecem como os tumores, as doenças cardiocirculatórias e recentemente a AIDS. Assim percebemos que as doenças são mortais.
   Diferentes grupos sociais, a cada época, dão significação e sentido específico a entidade fisiopatológica.
   A doença possibilita o conhecimento sobre as mudanças sociais, dinâmica demográfica e o deslocamento populacional, reações societárias, constituição do estado e de identidades nacionais.
  No decorrer do século XIX, a cólera, era a moléstia que atingia de forma mais cruel as camadas pobres. A ameaça de uma epidemia de cólera provocava apreensão social e seu surgimento era utilizado como instrumento para testar a eficiência das estruturas administrativas locais,, expondo os problemas políticos, sociais e morais. Desta forma a epidemia é um mecanismo para avaliar uma administração, as relações entre poderes, ou ainda a imagem que uma sociedade tem de si mesmo.
  As epidemias possuem como característica marcante, o grande número de vitimas, a impotência diante da morte e a exclusão dos doentes. A explicação para a morte pode mudar da inevitabilidade de um castigo divino ao terror e a discriminação.
   As discussões sobre a morte trazem uma nova compreensão da doença como fato socialmente construído, e assim portanto significados reveladores de uma sociedade.
   Alguns historiadores procuram traçar os encontros do humanidade com as doenças infecciosas e as profundas conseqüências de novos contatos entre povos com experiências imunológicas distintas. Verificam como os padrões variantes de circulação das doenças afetaram as relações humanas ao longo do tempo.
   Para McNEIL, a doença infecciosa seria um dos parâmetros fundamentais e determinantes da história humana. Então o impacto demográfico das epidemias e os ajustamentos ecológicos decorrentes das mutações biológicas, confere as diferentes crenças relativas a doença, um papel secundário na história que ele procura construir. McNEILL não contempla a analise do modo como as diferentes sociedades compreenderam e compreendem a sua experiência patológica.
   Outros estudos estão sendo feitos neste sentido pela Antropologia e Sociologia, explorando o domínio da construção social e simbólica da doença nas diversas sociedades.

(Peste na "Idade Média")

    Desta forma, a historia das doenças é um dos caminhos para se compreender uma sociedade, sendo necessário avaliar a dimensão social da doença, pois ela funciona como um suporte das expressões da sociedade, então o doente e o meio social interagem constantemente.
   Além de McNEILL, outros autores também trabalham com está temática, como: François, Delaporte, Diezo, Arnaus, Marcus Cueto, Allan Brandt, Sergio, Sergio Carrara, Dilene R. Nascimento, Claudine Herzlieh, Janine Pierrot, Ítalo Tronca, Alfred Crosby, Asa Brizzs, Louis Cheslier, Paul Slack, Charles Rosemberg, IranilSon Burity, além de outros.
   Na representação social da doença deve-se levar em consideração a articulação entre a patologia de uma época, a configuração histórica e ideológica que a contextualiza e o estágio de desenvolvimento da medicina, pois a representação está enraizada na realidade social e histórica que ao mesmo tempo contribui para construir.
   No geral as epidemias impõem ao homem dilemas como: angustia, medo da morte, desejo de salvar-se do perigo, imposições de satisfação das necessidades da sobrevivência, a importância de entender e explicar as estruturas lógicas e emocionais da existência comum.
   Alguns fatores como a ferrovia, urbanização, industrialização, e a imigração, determinaram uma crescente complexidade econômica, fazendo diminuir a disseminação de patologias.
   Desta forma é possível compreender que os estudos sobre as epidemias serão sempre instigantes quando se ampliam as nossas percepções sobre a interação entre as dimensões biológicas, econômicas, sociais, políticas e culturais.

                                                        (Charge sobre a Revolta da Vacina)

Ítalo Coura de Aucântara. Gradundo de História, UFCG.

Links relacionados:
http://www.ff.ul.pt/mestrados/HistoriaCienciasSaude/Ambito.html
http://historiasdahistoria5ano.blogspot.com/2010/02/saude-e-medicina.html
http://pessoas.hsw.uol.com.br/historia-da-saude.htm
http://cafehistoria.ning.com/group/histriasasadeedoena
http://cafehistoria.ning.com/group/historiadamedicina


Vídeos:

http://www.youtube.com/watch?v=4cRa6w0LnZE
http://www.youtube.com/watch?v=cTGOcqsRlyc

As linhas em que caminham os viajantes: Brasil redesenhado pelo visitante.



             O artigo da professora Ângela Domingues, publicado pela Revista Brasilenã em História, tem como propósito relatar a trajetória dos viajantes ingleses no Brasil em meados do século XVIII. Nesse sentido a autora procura destacar os relatos dos viajantes, os diários de viagens e principalmente o conhecimento científico.
 Alguns autores contemporâneos afirmam que só após 1808 teria iniciado um reconhecimento científico sistemático da colônia luso-brasileira por viajantes franceses, alemães, russos e ingleses, por indivíduos lúcidos, dinâmicos e inovadores, detentores de interesses científicos, comerciais e econômicos notórios em relação aos domínios coloniais europeus.
Portanto, viagens, experiências, observações efetuadas diretamente da realidade criavam junto dos leitores de relatos um sentimento de veracidade e credibilidade, clarificavam dúvidas e desmentiam fabulações. Cabe ressaltar, que a bagagem intelectual do viajante era de extrema importância, pois, levava em consideração a sua formação, preparação /treino, conhecimentos científicos e lingüísticos passando a serem caracterizados como os ‘homens de ciência’.
Nesse sentido a autora parte do princípio de que o conhecimento geográfico, natural, econômico, ‘antropológico’ e a ocupação humana e urbana do território sul-americano, tal como perpassa nas fontes analisadas, contribuiu para a construção do ‘conhecimento científico’ que a elite britânica deteve em relação ao Brasil ao longo dos Setecentos. Entretanto o objetivo da autora é mostrar como esses homens de ciência contribuíram para diminuir os perigos da navegação e tornar melhor conhecidos a ocupação, costumes, artes de produtos de países estrangeiros.
         A partir dos relatos de viajantes, diários de viagens e escalas, podemos destacar os portos brasileiros, que tiveram fundamental importância no contexto histórico do Brasil, embora houvesse grandes restrições para a permanência de estrangeiros em território brasileiro.
O ‘século das luzes’, foi um período de grande inovação para aqueles que buscavam desafios entre os mares. A princípio as viagens mostravam-se como algo confuso, inseguro e nublado para uma aventura que embora de natureza igualmente singular e perigosa, passou a ser vista pelos viajantes do período iluminista como segura e com maiores probabilidades de êxito, graças á “inteligência e luzes de geógrafos e mareantes esclarecidos e imparciais”. Estes consideravam-se súditos leais, socialmente responsáveis, executando uma missão (política, comercial e cientifica) sob o estandarte de uma nacionalidade e de um Estado, que lhes conferia um sentimento de identidade e superioridade. Ora, dentre todos os povos, os ingleses considerava-se mais civilizados, honrados, prósperos e esclarecidos. Neste ‘século das luzes’, os textos, as imagens e os mapas permitem, acima de tudo, a materialização de experiências diretas e pessoais de observações feitas, vistas e comprovadas que assim se tornaram transmissíveis.
       Podemos considerar que tais viajantes tinham em vista uma série de interesses, tanto comercial e político como também intelectual. Podemos destacar Thomas Lindley, cujo interesse era a busca de novos mercados e produtos, como o açúcar e o pau-brasil, além de outros viajantes que se preocupavam com as observações geográficas, astronômicas, científicas-naturais do litoral sul-americano, merecendo destaque James Cook, Josep Bankes e Charles Solander.  
Nesse contexto, a autora dá ênfase á competição comercial, política e estratégica entre as nações, principalmente no Rio de Janeiro, centro comercial e administrativo de importância incontestável, uma das cidades mais prósperas do hemisfério sul e porta de entrada para as minas de ouro, pois concentrava a atenção internacional e era uma das escalas preferidas dos navegantes.
Portanto, era nessa ótica que as ambições e objetivos pessoais se correlacionavam com um horizonte mais vasto, o da nação, que os súditos das monarquias européias encontravam justificação e legitimidade para o secretismo com que portugueses e espanhóis rodeavam os seus domínios ultramarinos.
Cabe ressaltar, que a idéia de uma invasão ao território não esteve de todo afastada do pensamento político e comercial de estratégias e mercadores de grosso trato das potências nascentes, com especial incidência entre franceses e ingleses que ponderavam os inúmeros benefícios advindos “do controle exclusivo do comércio e dos tesouros sul-americanos” e que se avaliavam mutuamente como concorrentes e opositores. Entretanto, a informação veiculada tinha, portanto, interesse econômico, estratégico, comercial e científico e pode-se inferir que tantos os velhos impérios como as novas potências dependiam das informações de homens viajantes inteligentes revertidas em benefício político, comercial e científico e em orgulho e glória do país afeto a viagem.
          Segundo a autora Ângela Domingues muitos relatos de viajantes extrapolaram fronteiras graças ás traduções, que muito contribuíram para reformular a imagem que a Europa letrada e iletrada tinha da colônia brasileira. Por fim a autora ressalva que essas viagens aventurosas e o conhecimento científico associado contribuíram não apenas para a exaltação dos feitos individuais, mas, acima de tudo, glorificavam a nação a que esses heróis pertenciam – a Inglaterra.

Resenhada por PATRÍCIA VELOSO BARBOSA, acadêmica do curso de História pela Universidade Federal de Campina Grande – UFCG

Referência:
DOMINGUES, Ângela. O Brasil nos relatos ingleses do século XVIII: produção de discursos sobre o novo mundo. Revista Brasilenã  Historia, janeiro-junior, ano 2008, vol. 28, número 55. Associação Nacional de História. São Paulo, Brasil, pgs. 133-152.




Outros viajantes:

                   
(Bates e Wallace)

(Charles Marie de La Condamine)

                                                               (Guido Thomaz Marlière)  
                                     http://www.revistafenix.pro.br/PDF12/secaolivre.artigo.8-Jose.Otavio.Aguiar.pdf
                                     http://www.revistafenix.pro.br/vol12JOtavio.php
                                     http://www.devieira.com.br/guidoval.com/guidmarl.htm

                                                                         (Saint-Hilaire)
                    http://www.intellectus.uerj.br/Textos/Ano2n1/Texto%20de%20%20Lorelai%20Kury.pdf
                    http://www.ichs.ufop.br/cadernosdehistoria/download/CadernosDeHistoria-05-04.pdf
                    http://www.geoturismobrasil.com/artigos/Saint%20Hilaire%20no%20Sao%20Francisco.pdf
                    http://hvsh.cria.org.br/

                                                              (Claude Lévi-Strauss)                         
http://moaciralencarjunior.wordpress.com/2009/11/03/claude-levi-strauss-1908-2009/
http://www.netsaber.com.br/biografias/ver_biografia_c_1775.html
http://noticias.r7.com/internacional/noticias/tristes-tropicos-e-um-dos-principais-livros-do-seculo-20-20091103.html


(Pierre Verger)



Da possibilidade ao encontro da historicidade

(Relógios Derretidos - Salvador Dali)





Nesses tempos em que o próprio tempo não permite a vivência das calçadas, onde as notícias, as experiências e as histórias eram contadas ou repassadas durante o anoitecer deve-se agradecer aos gênios criativos e criadores desse mundo (contemporâneo) das idéias, facilitador da interação no universo do conhecimento. O veículo pelo qual estamos, nesse momento, a dialogar é um exemplo da afirmação anterior, visto que possibilita que nós, alunos da Universidade Federal de Campina Grande nos, possamos partilhar com indivíduos dos mais diversos lugares os conteúdos trabalhados na disciplina de Historiografia – ministrada pelo professor doutor Iranilson Buriti.
O blog foi criado na década de 1990, como uma forma de aperfeiçoamento das listas de discussão, realizadas através de e-mails, permitindo uma maior interatividade a partir do momento em que as intervenções são realizadas todas no mesmo espaço. Inicialmente mais ligado à escritas de si, passa, em seguida, a ocupar espaço nos mais distintos campos, como a literatura, a música, futebol, moda, culinária assim como a História.
Para iniciarmos o “tricô” nada melhor do que comentar um artigo do historiador Manoel Luiz Salgado Guimarães, que tem como título Escrever a História, domesticar o passado onde consegue dialogar com o leitor sobre o escrever história, perpassando desde essa  possibilidade até chegar-se a um encontro com a historicidade. O início do artigo traz uma citação de Odisséia, capítulo VIII, ponto de partida para a discussão acerca da representação da realidade de mundo ocidental. Traz as visões de outros historiadores em relação a tal temática, tendo como exemplo Hananh Arendt – e sua preocupação com as formas consideradas antigas e as modernas do escrever para a disciplina – e François Hartog atuando no tocante a memória e lembrança, ambos dando ênfase a grande importância de Homero
A discussão em torno da narrativa histórica foi construída de maneira que possibilita o leitor pensar escrita enquanto um movimento ou um caminho a ser percorrido entre aquilo que foi vivenciado e o que é relatado. Isto porque a reconstituição dos cenários passados não é viável quando se leva em consideração os elementos do narrar, como a memória, os sentimentos envolvidos nas experiências – também por parte daqueles que irão ler – assim como o lugar de partida do autor, que pratica um descentramento de si no momento do distanciamento de si. Ele vai de encontro as novas experiências tendo o retorno logo após as inúmeras mudanças ocorridas pelo caminho, não possibilitando uma fidelidade, nem mesmo uma neutralidade ali empregada.
Outro ponto interessante na narrativa do Salgado Guimarães é o controle e a ordenação exercida por tal narrativa, no sentido de “enquadrar” os eventos numa espécie de mosaico onde os mesmo passarão a pertencer a um conjunto de significados e significações. Como nos disse, em sala de aula, o professor Iranilson Buriti a escrita é uma forma de aprisionar, se pensarmos que no momento em que se produz uma escrita sobre determinado assunto, o enquadramos na mesma, a depender das demandas e interesses ali embutidos.
Num segundo tópico, o autor trabalha a necessidade de se organizar a História enquanto disciplina, mantedora dos estudos e manuseios sobre o passado. Esse, numa relação estreita com aquela, foi posto num envolvimento direto com o presente e o futuro quando funciona enquanto definidor das expectativas assim como do respaldo para a manutenção do que se vive, interferindo também nos contornos do que ainda virá. A domesticação do passado se dá então através do que se espera aqui no presente, de certa maneira. A escrita é colocada então como capaz de desestabilizar ou construir uma nova unidade em nome dos objetivos, inclusive políticos.
A produção de uma escrita nacional se enquadra dentro do raciocínio anterior, se pensarmos a necessidade existente da continuidade do passado, mesmo que ainda venham a ter rupturas.  O exemplo de Ulisses, em Odisséia, é pertinente para se levar em conta que a história está muito presente nesse campo da narrativa, já que não se pode provar uma veracidade incontestável, uma verdade absoluta – penso que em nenhuma de suas correntes, não restringindo a esse lugar não apenas campos como história e literatura, história em quadrinhos ou até mesmo a escrita de si.
Autoria: Laís Medeiros Cavalcante. Graduanda do curso de História da UFCG.
Links relacionados:



Referência:

GUIMARÃES, Manoel Luiz Salgado. ESCREVER A HISTÓRIA, DOMESTICAR O PASSADO.